O Diabo Veste Prada e o fascínio por histórias com mulheres que escrevem

Gabriela Cuerba

Quando anunciaram que teria a adaptação de O Diabo Veste Prada 2, não foi só o filme que voltou à boca do povo — foi um imaginário inteiro. Bastaram alguns comentários nas redes para que muitas pessoas lembrassem como, nos anos 2000, trabalhar com escrita parecia algo super glamuroso, embora um pouco caótico, remontando uma memória afetiva nunca esquecida por uma geração inteira.

A jornalista atarefada correndo contra o prazo (carregando seus copos de café do Starbucks nas ruas movimentadas de Nova York e um punhado de revistas debaixo do braço), a assistente sobrevivendo ao mercado editorial, a colunista transformando a própria vida em matéria, a roteirista que precisa escrever o melhor filme já feito ou a autora passando pelo maior bloqueio criativo de sua carreira… tudo isso, para mim, era sinônimo de sucesso e me fazia pensar o quão importante seria ter uma vida profissional como a dessas personagens.

Para quem cresceu nessa época, isso nunca foi só um clichê, mas, sim, uma referência de uma profissão idealizada por milhares de garotas. Eu nasci em 2000 e cresci assistindo a mulheres que escreviam, até ter idade suficiente para também ler histórias protagonizadas por essas figuras femininas fortes. Mulheres que tinham colunas jornalísticas dos mais variados temas, que escreviam livros, editavam revistas, faziam entrevistas com seus astros (do cinema ou da música), estavam no auge da moda ou viviam cercadas de papéis, cafés e ideias mirabolantes para emplacar a próxima pauta. Elas tinham crises criativas, deadlines impossíveis e uma vida que parecia sempre prestes a virar uma grande narrativa, com aquele delicioso um toque de romance. Era fácil romantizar tudo isso.

Mas o que sempre me chamou atenção não era só a profissão. Era a forma como essas personagens enxergavam o mundo, como conseguiam dar a volta por cima, mesmo em meio às dificuldades ou em um ambiente patriarcal. Essas personagens prestavam atenção em tudo: nas conversas, nos silêncios, nas entrelinhas. Transformavam situações banais ou vivências pessoais em histórias incríveis — como no filme De Repente 30.

Talvez seja isso que continue nos fascinando como leitores e espectadores. Nessas histórias, a escrita nunca é só trabalho: é ferramenta, refúgio e tentativa de entendimento ou crescimento pessoal. Muitas dessas personagens escrevem porque estão perdidas. Outras, porque estão tentando se encontrar. Algumas, porque simplesmente não conseguem não escrever, dependem disso como se fosse seu alimento diário.

E esse ponto importa e nos dá visibilidade enquanto mulheres. Porque, historicamente, escrever nunca foi um espaço neutro para mulheres, principalmente se pensarmos nas precursoras como Jane Austen, as irmãs Brontë e, claro, Louisa May Alcott — que criou a icônica Jo March, uma portagonista à frente de seu tempo, que busca independência por meio da escrita. Ou seja, esse fascínio por mulheres que escrevem não é algo restrito à nossa geração: é um fenômeno que sempre vai brilhar nossos olhos.

Afinal, uma mulher publicar, opinar, narrar o mundo, se posicionar e mostrar seu poder através da escrita é sempre revolucionário! Tudo isso, por muito tempo, foi limitado, dificultado, silenciado ou mediado. Então, quando vemos personagens femininas vivendo da escrita, existe ali também um gosto de vitória: todas nós vencemos, todas nós podemos ser incríveis como as protagonistas que sempre admiramos. Podemos ser quem quisermos ser e, quem sabe, viver da escrita. Por que não?

Foram essas mesmas protagonistas que inspiraram a pequena Gabriela a se tornar a jornalista que é hoje. Sim, queridos e gentis leitores, eu me formei em jornalismo em 2021, depois de ter como referência essas grandes personagens que viviam da escrita e que sempre me fascinaram. Escrever não é só profissão, é um ato de rebeldia, de coragem e de liberdade, para expressarmos cada ideia que nasce em nossas mentes.

A literatura registra isso há muito tempo. Em Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf argumenta que, para escrever, uma mulher precisa de independência financeira e um espaço próprio. Décadas depois, outras autoras ampliaram essa discussão a partir de suas próprias experiências. No Brasil, por exemplo, a aclamada Conceição Evaristo cunhou o termo escrevivência para falar de uma escrita que nasce da vida vivida, transformando memória em narrativa. E é isso que muitas das personagens mais icônicas do cinema e da literatura vinham fazendo: transformando suas vivências em pautas, artigos, reportagens, filmes e livros ao transformar a própria experiência em memória coletiva. 

E existe também o lado mais pop e idealizado desse imaginário. Em O Diabo Veste Prada, a jovem Andrea Sachs (interpretada nos cinemas por Anne Hathaway) entra no universo editorial tentando, no fundo, se tornar uma jornalista renomada de moda. Entre exigências absurdas e uma rotina exaustiva, tanto o livro de Lauren Weisberger quanto a adaptação homônima para as telonas captura bem essa ambiguidade: trabalhar com palavras pode ser, ao mesmo tempo, um sonho glamuroso e um pesadelo de desgaste mental. Talvez seja justamente essa mistura que torne essas histórias tão interessantes, e as protagonistas ainda mais fortes e resilientes.

Porque escrever nunca aparece como algo simples. Sempre é atravessado por dúvida, ambição, insegurança e desejo de reconhecimento. Mesmo quem nunca desejou ser escritora provavelmente já sentiu vontade de desabafar e organizar a própria vida em palavras. De entender melhor o que está sentindo, de registrar alguma coisa antes que ela desapareça. Essas personagens fazem isso o tempo todo e, ao fazerem, acabam criando uma ponte silenciosa com quem lê ou assiste, gerando identificação ou o desejo de trilhar o mesmo caminho, como foi o meu caso.

A realidade não é tão cinematográfica quanto os filmes e obras literárias prometiam. Mas também não perdeu completamente o encanto, pois, a cada dia, eu amo mais esse universo de palavras — e amo poder ser uma mulher que vive da escrita. Claro, ainda existe algo muito específico em transformar pensamento em texto. Em encontrar a palavra certa; em perceber que uma ideia, quando colocada no papel, deixa de ser só sua e passa a existir para o mundo. Como este meu artigo agora, que chegou até você.

Talvez seja por isso que a gente continue apaixonado por histórias sobre mulheres que escrevem, como os best-sellers de Emily Henry, que focam em protagonistas feminas que vivem da escrita (Loucos por Livros e Leitura de Verão), e conquistaram uma nova geração de leitores. Nunca deixaremos de amar esse tipo de enredo, pois ele representa um gesto ancestral de empoderamento feminino por meio da cultura. 

Então, para entrar nesse clima, convido você a mergulhar em narrativas como essas, com protagonismos que tanto amamos acompanhar. Confira as indicações:

🔹 O Diabo Veste Prada + A Vingança Veste Prada | Autora: Lauren Weisberger

🔸 Objetos Cortantes | Autora: Gillian Flynn

🔹 Os Sete Maridos de Evelyn Hugo | Autora: Taylor Jenkins Reid

🔸 Verity | Autora: Colleen Hoover

🔹 Leitura de Verão | Autora: Emily Henry

🔸 A Garota do Lago | Autor: Charlie Donlea

🔹 O Rascunho do Amor | Autores: Emily Wibberley e Austin Siegemund-Broka

🔸 Procure nas Cinzas | Autor: Charlie Donlea

🔹 Verão em Nova York | Autora: Alex Aster

🔸 Mulherzinhas | Autora: Louisa May Alcott

3 comentários em “O Diabo Veste Prada e o fascínio por histórias com mulheres que escrevem”

  1. MAISA GONCALVES DE CARVALHO

    Nossa, tantas camadas nesse artigo… e ainda não entendem como as mulheres se sentem exaustas – seguimos tendo de nos provar a todo momento. Mas, seguimos!!

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  2. Giovana - @colmeialeitora

    Eu culpo todos esses filmes por crescer achando que minha vida seria assim kkkkk tenho um carinho especial por De Repente 30, que desses filmes citados era o que mais me deslumbrava!

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  3. Aline - @lilihvros

    Amo ver mulheres escrevendo, não só pela qualidade dos livros/filmes, mas como forma de ocupar espaço! Adorei!

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