Nos bastidores da tradução literária e Hyperion: um bate-papo com Leonardo Alves

Irei começar este texto com uma história muito curiosa: uma descoberta feita pela mini Aline, no auge dos seus 12 anos.
Quando comecei a ler com constância e a devorar livro atrás de livro, aconteceu uma coisa muito peculiar… Para começar, é importante dizer que eu não lia nem curiosidades sobre os autores, nem a orelha da obra com mais informações sobre quem a tinha escrito — enfim, não lia nada além do nome na capa. Sim, eu era terrível, eu sei.
ATÉ QUE, em 2008, fiquei apaixonada pelo livro Crepúsculo e não me conformei com o final. Eu queria perguntar à autora Stephenie Meyer o que iria acontecer nos outros volumes! (Hehe, a criança iludida.)
O livro estava em português, então eu, obviamente, presumi que a autora era do Brasil. E olha a minha surpresa ao descobrir que ela morava nos Estados Unidos e falava inglês! Se o livro estava em português, Stephenie Meyer então falava, além de inglês, português também, certo? PÉÉÉM, errado.
E foi aí, graças a Crepúsculo e ao meu amor por Edward Cullen, que descobri a existência dos TRADUTORES. A tradução dessa obra, inclusive, é de Ryta Vinagre.
Desde então, sempre que pego um livro para ler, além de pesquisar a vida dos autores, procuro saber quem fez a tradução daquela obra. É muito satisfatório conhecer pelo menos o nome da pessoa que me permitiu ter contato com histórias em idiomas que eu, muitas vezes, não domino. Como afirma a tradutora Rosemary Arrojo em seu livro Oficina de Tradução (1997 p.10): a tradução é “uma das mais complexas de todas as atividades realizadas pelo homem”. É uma verdadeira arte.
Bom, eu falei que era satisfatório conhecer pelo menos o nome do tradutor de uma obra, mas que tal conhecer mais coisas sobre essa pessoa? Foi com isso em mente que procuramos Leonardo Alves, tradutor da saga Cantos de Hyperion, do autor Dan Simmons, para um bate-papo sobre tradução (ou seja, fofocar e falar sobre a polêmica do nome Picanço na saga).
Com vocês, Leonardo Alves, tradutor há 15 anos e com diversas obras maravilhosas traduzidas:
1. Quando alguém te pergunta o que é ser tradutor, o que você responde?
Olha, eu vou ser bem sincero: é muito raro alguém me perguntar o que é ser tradutor. Geralmente, a pessoa que mais me pergunta isso sou eu mesmo [risos].
É difícil responder essa pergunta, porque traduzir é muita coisa e não existe um consenso. Se discute o que é a tradução há milhares de anos. Acho que a expressão que mais me encanta é a do Paulo Rónai, que foi um acadêmico, tradutor e filólogo.
Ele dizia que um tradutor é um “modesto artista”, e eu gosto muito dessa ideia da tradução como arte. A gente usa técnicas, ferramentas, instrumentos, coisas bastante específicas e rigorosas, mas para produzir algo que tem uma personalidade, uma expressão pessoal, que tem uma cara, uma cara minha — e arte é isso.
Arte é a gente produzir alguma coisa que tem um efeito estético, que seja “belo” de certa forma, entre muitas aspas, e acho que a tradução é bastante isso.
2. São tantas pessoas apaixonadas por essa arte de traduzir… mas por que você escolheu ser tradutor e por que você continua nisso? Às vezes a gente começa em uma coisa, mas o que faz a gente ficar nessa coisa é um pouquinho diferente.
Eu trabalhava em editora. A maior parte dos livros que editei era de literatura estrangeira, então, desde muito cedo na carreira, tive muito contato com tradução. Só que esse contato era do outro lado do balcão, recebendo tradução, cuidando de revisão, fazendo cotejo.
Com o passar dos anos, fui ficando encantado com aquele texto. Chegou um ponto que falei: poxa, acho que eu queria fazer isso.
Entre 2010 e 2011, cheguei a traduzir em casa sozinho, pegava um conto/artigo para treinar, e depois comecei a perseguir cursos de tradução para me preparar, porque eu falei: quero ser tradutor, então vou procurar cursos.
Mudei para Curitiba, para fazer uma especialização em tradução, voltei para o Rio, trabalhei de novo em editora, pedi trabalho de tradução para as editoras que conhecia, vendo se alguém me dava uma chance, até que me deram uma chance e decidi ficar só como tradutor.
Então, em 2015, fiz a transição de vez, saí da editora e virei tradutor integralmente.
E por que que eu continuei como tradutor? Porque o amor não acabou, porque eu adoro. Cada livro é uma aventura diferente, é uma escola inteira diferente, muita coisa que eu aprendo, pesquiso, estudo.
É essa coisa magnífica de usar a língua para escrever um texto. É tudo muito enriquecedor. Eu não consigo morrer de tédio, porque não dá [risos], cada livro é uma surpresa.
3. Assim como os leitores veem que cada obra é um mundo novo, para o tradutor é a mesma coisa, e não tem leitura mais atenta do que a do tradutor. Falando de atenção: qual obra te deu mais trabalho na hora de traduzir?
Olha, é difícil responder isso, porque têm livros que são mais tranquilos e têm livros que são mais complicados. Dentre os mais complicados, eles são complicados por motivos diferentes.
Já traduzi livro de finanças, e eu não entendo absolutamente nada de finanças, é um texto árido, chorei para fazer.
Já fiz uma biografia do Hitler, por exemplo, e aí isso também era pesado, mas por um motivo bem diferente.
Acho que, se eu pudesse escolher um que salta mais na lembrança, foi A Arte da Guerra, do Sun Tzu, na edição da Penguin Companhia.
Em primeiro lugar, é um livro de linguagem mais acadêmica, extremamente meticulosa, rigorosa, com trechos em versos, então deu muito trabalho para traduzir.
Para fazer as pesquisas, fui procurar em outros idiomas, é muito difícil achar material em português, porque é um livro que foi escrito originalmente em chinês, e eu traduzi de uma tradução inglesa.
Então me deu muito orgulho, mas também deu muito trabalho.
E as traduções de Cantos de Hyperion também não posso dizer que foram fáceis. Foram centenas de termos, muita referência literária, muitos poemas para traduzir, quatro livros enormes… então não foi molezinha não.
4. E, se você pudesse escolher um livro ou autor dos seus sonhos para traduzir, qual seria? Só falta você falar que o objeto de tradução dos seus sonhos é pior do que esses [risos].
É… olha, pior que é [risos]. Atualmente não tenho nenhum autor/livro dos sonhos que eu “daria um braço” para traduzir, mas já tive.
E aconteceu de esse livro maravilhoso cair no meu colo, é de um autor que tem muita gente de “luto”, eu com certeza estou, que é o Neil Gaiman. O livro é Deuses Americanos, que foi, durante muito tempo, o meu preferido da vida.
Quando eu estava lendo pela terceira vez, a editora Intrínseca chega para mim assim e fala: vem cá, a gente vai fazer a edição comemorativa de 10 anos, quer traduzir?
E aí lembro claramente que eu estava no computador, trabalhando, chegou o e-mail, eu li aquilo e gelei, o meu coração parou, apertou, fiquei pensando, pensando, reli de novo.
Sério, levei uns cinco minutos só para voltar a respirar para responder a mensagem assim: “Ah, claro, eu topo. Nossa, que legal, adoro esse livro.”
Aí eu desliguei o computador e fui deitar [risos].
Hoje em dia eu não tenho mais isso, mas tenho uma curiosidade mórbida de como seria traduzir As Viagens de Guliver e aquelas comédias de Shakespeare também. Eu gosto de desafios e fico pensando… será?
5. Você tocou em polêmica antes da minha pergunta polêmica [risos]. Então vamos para polêmica, vamos falar do Picanço. Para quem não sabe, ele é um personagem de uma série chamada Cantos de Hyperion, do autor Dan Simmons, e o nome dele em inglês é Shrike. Quando ele foi rebatizado em português para Picanço, gerou um rebuliço nos fãs. A pergunta é: haveria alguma forma de manter o nome em inglês, Shrike? Chegou a hora do tradutor se defender.
É uma questão complicada, porque, em primeiro lugar, a palavra shrike é o nome de uma espécie de pássaro de climas temperados na Europa e na América do Norte. É um passarinho pequenininho, uma gracinha, só que ele tem um bico um pouquinho torto e tem o hábito de guardar as presas em espinhos.
As fotos são um pouco assustadoras, porque você vê aquela coisa fofinha do lado de uma carcaça cravada em um espinho, sem a menor cerimônia. Então, assim, tem esse problema: o picanço existe.
Uma segunda questão: o pássaro, como só existe na Europa e na América do Norte, recebeu o nome em português de Portugal. Lá, a palavra Picanço não é estranha, não inspira risadinha, e não existe sinônimo para esse nome.
Eu até pensei em inventar um outro nome para o Picanço, mas a única maneira de traduzir isso para o português brasileiro que não soasse [esquisito] seria inventar um termo como: o Espinhoso.
Ou então seguir a tradição brasileira de dar nome de pássaro com radicais da língua tupi, e aí ficaria esquisitíssimo também. Então eu optei por traduzir.
E por que não deixei em inglês? Porque é uma questão de coerência com o resto do livro. A história se passa séculos no futuro, em um universo amplamente colonizado pela humanidade. Não existem mais as nações do jeito que a gente tem hoje, todo mundo faz parte mais ou menos de um mesmo bloco hegemônico.
Então não faria sentido manter uma palavra, que é um substantivo comum, o Shrike, em inglês, só porque soa menos engraçadinho do que a versão.
Eu mantive algumas palavras em inglês, mas eram nomes próprios, tipo Jacktown, uma cidadezinha de Hyperion. A própria palavra “Hyperion” foi uma conversa que tive com a editora, porque existem grafias variadas, é uma palavra do grego que foi anglicizada, transliterada para o inglês.
Pensamos em algumas opções e acabamos escolhendo Hyperion mesmo. Endymion é a mesma coisa.
Mas com o Picanço não tinha esse jogo. Se eu deixasse Shrike lá no livro, ia destoar que nem um espinho saliente ali. Pensando nisso, eu podia até ter usado isso como justificativa, mas é meio que uma piada na minha cabeça [risos].
Eu justifico assim e tô feliz com a escolha de Picanço. Sei que muita gente não concorda, e eu entendo 100%. O legal da tradução é que cada um pode fazer a sua.
Daqui a alguns anos, espero que vários [risos], alguma editora vai pensar em relançar Hyperion com uma tradução nova, e alguém vai fazer uma tradução diferente.
É legal ver muita gente tentando, encarando o mesmo texto e propondo novas soluções.
6. É como o caso Paralamas do Sucesso, que é um nome estranho, mas que hoje não causa mais estranhamento. Acredito que quem for pegar Hyperion só em português não vai estranhar o nome Picanço, só estranha quem teve contato com a obra em inglês. Falando da série, passarinhos, que não foram picanços, me contaram que o 4º livro está vindo este ano. Tem alguma coisa que a gente pode esperar dessa conclusão épica? E qual dos quatro foi o seu favorito da saga?

Olha, deixa eu ver o que eu posso contar sem estragar nada.
O livro quatro é muito, muito diferente do que o primeiro e o segundo foram. Ele, junto com o livro três, tem uma história diferente, se passa em outro momento do tempo, tem outras premissas, é um outro tipo de rolê.
E é uma conclusão que, ao meu ver, foi muito, muito legal. Ele resolve algumas dúvidas, soluciona alguns mistérios, responde algumas perguntas que tinham ficado pendentes, recontextualiza muita coisa e joga uma luz completamente diferente nos dois primeiros livros.
Então eu gostei muito de ler por conta disso, acho que se eu tivesse que escolher o meu favorito… é difícil, mas acho que o quatro acabou sendo o meu preferido um pouco por conta disso, porque acabei lendo quatro livros ao mesmo tempo ao ler o último.
7. Sabendo que o quarto é o melhor de todos, não tenho nem mais palavras para a minha expectativa. Mal posso esperar! Vamos agora para a nossa última pergunta e só tenho a agradecer a sua participação, foi muito legal, o pessoal vai adorar. Compartilha com a gente obras que você traduziu e recomenda a leitura.
Espero que gostem [risos].
Para a Antofágica, eu fiz três: Um Conto de Natal, do Dickens, que foi bem gostosinho de fazer; o livro de contos Eu morreria por ti e outras histórias, do F. Scott Fitzgerald; e, recentemente, o Estudo em Vermelho, do Arthur Conan Doyle, que é um dos meus preferidos dele, sempre recomendo.
Esse, aliás, tem uma notinha de tradução minha no final.
Tenho aqui também outra ficção científica que agora tá bem em alta: O Problema dos Três Corpos, do Cixin Liu. Adorei fazer a trilogia inteira.
Também traduzi do inglês para o português Arrume Confusão, da autora Kelly Link, lançado pela editora Tordesilhas, que é um livrinho muito pouco conhecido. São contos meio fantásticos, meio surreais, é uma delícia.
Foi muito difícil, porque cada conto tem uma linguagem muito particular e ela faz um jogo de metáforas muito inusitado, então, para traduzir, é cheio de armadilhas — foi muito legal de fazer.
Tem o Fogo e Sangue – Volume 1, de George R. R. Martin, que fiz junto com a Regiane Winarski, e foi maravilhoso de fazer.
As Crônicas de Âmbar, tomos I e II, de Roger Zelazny — eu adorei esses livros, são 10 livros ao todo, e aí cada tomo tem cinco. Nossa, foi incrível!
Já falei do A Arte da Guerra e vou falar de novo: esse livro é maravilhoso, maravilhoso. Existem 200 mil edições brasileiras, mas essa edição da Penguin é muito séria, muito bacana, tem um texto de apresentação de um historiador brasileiro que é pesquisador especialista na China, tem uma introdução muito legal do próprio tradutor que fez a edição inglesa. Não tem um texto meu, mas tem a minha tradução.
Eu poderia falar aqui a noite inteira sobre coisas legais que eu traduzi [risos].
Quer conferir o vídeo dessa entrevista?
Assista o conteúdo produzido pela colunista Aline:
Espero que vocês tenham gostado de dar uma espiadinha nos bastidores do trabalho de Leonardo Alves.
Agora faço o convite para vocês compartilharem aqui nos comentários o nome do livro que estão lendo e quem fez a tradução, caso seja um livro estrangeiro. Se for nacional, maravilha também!
Comenta que a gente gosta de fofoca, hehehe.
Ah, e caso queiram entrar em contato com o Leonardo Alves, anota aí:
