[Resenha] Uma Delicada Coleção de Ausências

Ariane Moraes

Há livros que contam histórias. Outros reorganizam a forma como sentimos o tempo, o corpo e a ausência. Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei (2025), pertence decisivamente ao segundo grupo — e é justamente aí que reside sua potência e seu risco.

Desde suas obras anteriores, Aline Bei constrói um projeto literário reconhecível, com uma escrita que se desloca entre a prosa, poesia e a encenação teatral. Aqui, esse deslocamento se torna ainda mais significativo: para a autora, a representação do trauma vem justamente de uma fragmentação natural; a própria estrutura tem a ver com a fratura do trauma e com seu percurso poético e cênico. Assim, se antes a primeira pessoa funcionava como eixo de interioridade, agora a autora opta por uma terceira pessoa rarefeita, quase sem marca de gênero, que amplia o campo narrativo e aproxima o texto de uma espécie de dramaturgia íntima, colocando-o em cena.

Essa escolha formal sustenta o que considero a tese central deste romance: a ausência não é um vazio passivo, é uma força ativa que organiza os afetos. A narrativa se sustenta em um tripé geracional, em que o movimento de uma determina a estática da outra. Acompanhamos, então, a avó Margarida — que nos é apresentada logo no início e pratica a quiromancia em uma feira de antiguidades como forma de sustento —, a mãe, Glória, que partiu, e a menina (neta).

A fragmentação da autora (que vamos chamar aqui de estética do trauma) constrói uma rede de lacunas e gestos interrompidos, em que o que não é dito pesa tanto quanto o que é narrado. Começando pela mãe que parte, ela redefine todas as relações ao seu redor. A ausência, aqui, além de tema, é estrutura: determina o ritmo do texto, fragmenta a linguagem, impõe pausas e exige do leitor uma escuta mais atenta. Inclusive, toda a experiência de ler Aline Bei é, em grande medida, aprender a ler o que falta.

O foco recai sobre essa herança (ou dinâmica) feminina. Margarida e a neta habitam um tempo suspenso, onde o passado (Glória) é uma presença constante justamente por não estar lá. Se a vida é uma sucessão de linhas que se cruzam na palma da mão, a protagonista tenta encontrar o ponto de interseção em que ela começou a ser apenas o resto de uma partida. O abandono excede o evento traumático único e se transforma nessa condição atmosférica sob a qual a menina se desenvolve.

E chegamos ao ponto em que a escrita da autora se radicaliza. A página passa a funcionar como campo visual e sonoro: cortes abruptos, frases que se quebram antes de se completarem, e nota-se um trabalho rigoroso — quase obsessivo — com o ritmo, que transforma a leitura em uma experiência corporal. O texto respira, hesita, insiste. Não é exagero afirmar que há algo de performático nessa prosa, como se cada frase estivesse sendo dita em voz baixa, diante de nós.

No entanto, é precisamente essa intensidade formal que também produz suas tensões. Em alguns momentos, a linguagem parece se antecipar à narrativa, como se o impulso estético fosse mais rápido que a construção dramática. Não chega a comprometer o conjunto, mas evidencia um limite delicado: até que ponto o excesso de elaboração estilística potencializa a experiência e quando começa a dispersá-la?

Ainda assim, reduzir o romance a essa tensão seria perder de vista seu gesto mais forte. Porque, no fundo, Uma delicada coleção de ausências não busca resolver seus conflitos. Busca habitá-los. O corpo, por exemplo, aparece como lugar de inscrição dessas faltas, pois existe, envelhece, deseja, sofre, resiste. Não há abstração possível. A ausência se encarna.

Nesse sentido, o livro reafirma um movimento importante da literatura contemporânea — e da própria estética de Aline Bei: a recusa da linguagem como mera representação. A autora reproduz a experiência e isso é o que torna o livro tão fantástico. Ao fazê-lo, exige um leitor disposto a desacelerar, a aceitar a incompletude.

Talvez seja essa a delicadeza anunciada no título. Não há uma suavidade reconfortante, pois somos confrontados a lidar com aquilo que não se resolve. Uma delicadeza que não elimina a dor, mas é capaz de organizá-la em palavras (ou na ausência delas). Ao final, o que permanece não é apenas a história dessas mulheres, mas a sensação de que toda ausência, quando levada às últimas consequências, deixa de ser falta e se torna linguagem.

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